domingo, 7 de abril de 2013

E hoje... é o quê?


Pedro Passos Coelho (novinha)

SIM SR. PRIMEIRO-MINISTRO

No rescaldo da decisão do Tribunal Constitucional, ontem o Presidente da República lembrava que o Governo continua a ter condições para cumprir o seu mandato, enquanto toda a oposição alertava para a necessidade de realizar eleições antecipadas, por não haver outra alternativa com "legitimidade democrática". É bem possível que a todos assista a razão. Quanto ao Governo, não falta muito para que Passos Coelho faça uma declaração ao país.

Para anunciar o quê? Não sabemos. 
Que só continua com um compromisso assinado pelos subscritores do memorando? Tarde demais.
Que exige acordo para avançar com a imprescindível revisão constitucional? Faz todo o sentido.
Que vai remodelar o Governo na procura de revigorada dinâmica? Nada resolve.
Que recusa remodelação governamental para além de substituir demissões? É o mais razoável.
Que respeita o TC mas se demite por não haver condições? Talvez a melhor solução.        

Nesta dura realidade e perante tanta insensatez quiçá a mais responsável saída. Ou não é assim: "Quem criou o problema que o resolva" (e resta Cavaco, não?) Estaríamos entendidos... quanto ao Seguro de Sócrates ou à hipótese do nadador-salvador. Fátima Bonifácio

FIQUEM BEM


sábado, 6 de abril de 2013

Barulho e fantasmas



PRESIDENTE OUVE PASSOS

Quem será... o que será...?


O que faz falta. Helena Matos


Calma, antes de mais.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Efeito Sócrates


IRRESISTÍVEL TELEVISÃO

O Tribunal Constitucional disse de sua justiça, à boa maneira destes tempos. Aparecer para anunciar decisões, à hora dos telejornais, como agora fazem todos os badamecos que presumem ter alguma coisa parta dizer.
Arranjadinhos a preceito, aí estavam as luminárias de toga que decidiram sobre tão transcendente matéria. Portadores do acordão, extenso e trabalhoso, como fizeram questão de lembrar, suspiraram aliviados... que fadiga!
Vão descansar. Até amanhã. Voltaremos ao assunto para não ficarmos a meio desta coisa. Nem uma decisão constitucional nem uma decisão política mascarada de fraseologia jurídica.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O país dos pequeninos



LEGITIMIDADE DE PROGRAMA

Da lengalenga anti-governo fazem parte alarvidades sonantes de tipo variado e habilidosos disparates escolhidos a preceito. Opositor que se preze, seja encartado partidário ou avençado comentarista, não dispensa as fórmulas da praxe, cujas frequentes repetições transformaram em pretensos argumentos válidos. A questão da legitimidade política de quem governa é um desses casos. Ou seja: ninguém discute a legitimidade dos governantes para solicitar um resgate financeiro sem plebiscito eleitoral, todos se indignam e protestam contra a aplicação do acordo feito com os credores por não ter sido consultado o povo. Haverá sempre legitimidade para endividar e resgatar o país, nunca será legítima a austeridade exigida por quem financia essa insolvência. O indígena nada tem a dizer quando se pede dinheiro, só quer discutir como paga a dívida. Esperteza manhosa é o forte dos nativos.     


DESCARTÁVEL MAIS PARA MENOS

Quando se fala de remodelação no Governo a grande dificuldade é o vai-não-vai de Vitor Gaspar. Aqui-d'el-rei que deve ir ou que deve ficar, não faltam sentenças assanhadas. Uma das mais curiosas conclusões sobre o prodigioso Gaspar: é preciso manter o crânio das finanças no governo, tão detestado cá dentro mas bastante respeitado la fora; é inconcebível manter o rosto da tragédia nacional, o ministro que só subscreve desastres para o desgraçado tuga. Sempre os interesses do país, como convém.


A CARTA E A DILIGÊNCIA

Tó Zé Seguro deve utilizar serviços de correio demasiado anacrónicos. Só isso pode explicar tanta lentidão e demora na entrega das suas missívas. Depois diz-se vítima das acusações de que anda desorientado e perdeu o contacto com a realidade. No passado mês resolveu escrever uma carta à troika e, ao que consta, só ontem a franquia recebeu carimbo e guia de marcha. Ainda não foi apurado se o problema foi com a diligência ou do burro que a puxava.


FALTA DE TUDO E DE TEMPO

O Tribunal Constitucional nem se descose nem se queixa das pressões. Vai andando devagarinho no encaixe das peças para um arranjo acertadinho. O certo é que se não tivéssemos uma "casa da democracia" onde é só algazarra de uns quantos atontados, bem como um "guardião da constituição" canguinhas e tremeliques em demasia, a coisa seria outra. Se o Cavaco tivesse pedido a fiscalização preventiva, o Tribunal Constitucional só teria 20 dias para se pronunciar sobre eventuais inconstitucionalidades. Como pediu a fiscalização sucessiva, já passaram três meses, tantos juízes estafadinhos e nada de fumaça. Só nos falta acabarmos todos doidos amontoados no albergue nacional.


A derradeira pressão sobre o Tribunal Constitucional nos muros do manicómio. Paulo Pinto Mascarenhas 


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Irracionalidade em narrativa



NÃO VAI SER POSSÍVEL LEVAR ESTE BARCO A BOM PORTO

E o sujeito pensa que pode ter opinião, mesmo sendo o principal protagonista do desastre, mesmo que tenha regressado como partiu: sem aprender nada, sem esquecer nada. José Manuel Fernandes

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pode estar na hora de ir embora



SE NÃO HÁ CONDIÇÕES PARA CONTINUAR É MELHOR RENUNCIAR

Portugal tem um Governo em funções ainda a meio da legislatura, a quem os portugueses confiaram a governação do país, num momento difícil e decisivo, com condições excepcionais impostas, demasiado exigentes para cada português. Em menos de dois anos, após a bancarrota e o resgate nacional, com mais ou menos competência, melhor ou pior do que se esperava, todos os membros do governo fizeram o possível e o impossível pela recuperação do país, até esta fase tão crucial. Percorrido o trajecto inicial, não é difícil reconhecer tudo o que tem dificultado ou impossibilitado a acção do Governo, obstáculos demais para impedir uma inversão do rumo depressivo. Hoje, o sentimento da maioria dos portugueses é de muito desânimo e grande impotência, perante uma realidade tão dura e persistente.

Aqui chegados, especialistas mais ou menos comprometidos, opiniões da generalidade dos quadrantes políticos, muitos sujeitos dos que engrossam tanta unanimidade, todos apontam numa mesma direcção: temos um Governo maioritário que se encontra paralisado e sem espaço, que vem perdendo a iniciativa e a credibilidade, a quem será impossível corrigir percursos falhados, retomar tarefas suspensas, imprimir dinâmicas renovadas. Se é um país saturado e descrente que assim percebe o seu Governo, tão esgotado e sem vigor, num beco sem saída, dificilmente acreditará em quem governa.

Dos partidos políticos que subscreveram o memorando de entendimento detalhando as condições do resgate impostas pela troika, o Partido Socialista jamais equacionou a possibilidade de viabilizar um pacto de regime capaz de sustentar as verdadeiras reformas do Estado. Apenas se empenha, desde que está na oposição, na confrontação política, à espreita da possibilidade de voltar ao poder. E foi com essa leviandade que avançou agora com uma moção de censura, apenas reflexo de oportunismo político sem quaisquer consequências práticas. Para os socialistas e restante oposição, o único discurso vigente é a defesa do investimento público para fomentar crescimento económico, mais a recusa da austeridade que não consideram consequência do passado mas opção do presente. Os habituais disparates dos incorrigíveis que mais contribuíram para o atoleiro em que Portugal caiu.    

Do Presidente da República não vale a pena esperar muito mais. Compete-lhe como supremo magistrado da nação, cumprir e fazer cumprir a Constituição. Isso não significa que alguma vez esteja disponível para medidas que considere extremas. Mesmo que o Tribunal Constitucional se pronuncie pela inconstitucionalidade das normas orçamentais e caso o executivo PSD/CDS se recuse a apresentar um plano de alternativas, é pouco provável, em qualquer circunstância, que o Chefe do Estado actue demitindo o Governo em funções. Nesta fase da sua magistratura, Cavaco Silva é já considerado politicamente moribundo, muito empenhado em não se comprometer com qualquer medida fundamental de ruptura, cada vez mais preocupado em preservar o que lhe reste de prestígio, apenas para terminar a carreira política com alguma dignidade, bem longe da criatura etérea que aspirava ser.     

O actual momento político poderá ser de viragem, se surgirem condições que permitam ao Governo recomeçar a caminhada com outra vitalidade. Algo pouco expectável. Mas poderá ser de ruptura, quando for conhecida a decisão do Tribunal Constitucional, se o Governo for forçado a reconhecer o que parece óbvio: pelas inconstitucionalidades no orçamento de 2013 desapareceram as condições mínimas de governabilidade. Note-se que a maioria dos constitucionalistas tem antecipado, não ser apenas a “contribuição extraordinária de solidariedade sobre as pensões”, aquilo que os juízes considerarão inconstitucional (e a única verba que seria viável recuperar sem medidas suplementares de austeridade). Sendo dados como certos os chumbos de outras normas fiscalizadas, quando toda a gente reclama que deixe de se falar de austeridade porque é capricho apenas de quem governa, ao Governo, aqueles a quem todos os fracassos se atribuem, só restará uma saída: renunciar. 

Se tantas vozes autorizadas chegaram à derradeira conclusão que o Governo nada mais pode fazer, se não há remodelação que possa pôr o executivo a funcionar, se aqueles que estão destinados para salvar o país são os que de fora só exigem que se demitam ministro a ministro... e se o Governo de Portugal ainda é constituído por pessoas responsáveis que primeiro pensam no país, só resta ao primeiro-ministro apresentar a demissão, sem mais perda de tempo. Para grandes males, grandes remédios. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Um dia não são dias


SENADORES SEM SURPRESAS

Ângelo Correia: "Sócrates não mudou. Perdão, mudou num detalhe, a utilização permanente da expressão "narrativa". Percebe-se assim o fim último do curso de filosofia em Paris. O eng. Pinto de Sousa aprendeu pelo menos uma palavra e gosta dela. Já é bom. Pena é que a sua "narrativa" actual não seja completa. O que lhe falta mede a dimensão moral de quem a usa."
Mário Soares: "A entrevista de Sócrates foi o que me fez dar “a mão à palmatória”, acabando por ficar a favor da sua volta, já que tinha sido absolutamente contra o regresso do ex-líder socialista à cena política. A forma como Sócrates encarou os jornalistas e respondeu com “inteligência e muita paciência” fez com que mudasse de ideias. Telefonei-lhe mal acabou a entrevista e disse-lhe isso mesmo. Ele é um político nato. Quanto às consequências futuras deste regresso inesperado, acho que vai ser contra o Governo e nunca contra Seguro.”




As férias de Merkel em Itália (Reuters)

A PÁSCOA DE MERKEL TAMBÉM FOI MOLHADA

Ângela Merkel descansou alguns dias em termas italianas na companhia do marido. Não faltaram “paparazzi” a seguir os passos dos ilustres visitantes e “media” a dedicar espaço circunstanciado à estadia. Curiosos os relatos das nossas televisões:  
"Se a Alemanha se assume como motor económico da Europa, os países do sul vivem mergulhados numa profunda crise que tanto sacrificam as sua populações. Apesar disso, também vivemos um tempo de férias da Páscoa e isso é transversal a todos os países europeus. Mas enquanto muitos portugueses lamentam não ter dinheiro para passar uns dias fora de casa, a Chanceler alemã cumpre o ritual de viajar até à ilha de Ischia, junto a Nápoles, em Itália, aproveitando para gozar algum tempo de repouso. Rapidamente surgiram fotografias nas agências noticiosas, mostrando Merkel em trajes de turista, sem cerimónias, mas com os seguranças sempre por perto.
Isto sem falar da alegada foto da Chanceler Merkel a fazer nudismo na companhia de outras duas mulheres que está a agitar as redes sociais.





BERLUSCONI PRESTES A VOLTAR A PÔR A MÃO NA MASSA

Sílvio Berlusconi está disponível para apoiar a formação de uma grande coligação liderada pelo candidato de centro-esquerda Luigi Bersani. O líder de centro-direita só não aceita a hipótese de um governo tecnocrata ao estilo de Monti em Itália. Para evitar o impasse e facilitar o consenso entre os partidos que saíram vitoriosos das eleições legislativas manifestou esta abertura ao Presidente italiano Giorgio Napolitano.




Cordeiro sem "foda" a caminho da certificação

CORDEIRO SEM "FODA" A CAMINHO DA CERTIFICAÇÃO

O presidente da Câmara de Monção quis, à viva força, que o prato típico da terra, a foda, fosse certificada tal e qual é conhecido o cabrito assado no forno da terra. Foi difícil convencer o autarca de que a lei não é suscetível a tradições e que, como tal, a "foda" teria de cair.
Venceu o braço mais forte da lei. O nome do prato pode manter-se nas ementas dos restaurantes e continuar a ser conhecido localmente desse modo, mas a Lei não permite nomes obscenos. Assim, foi necessário encontrar um termo que não ferisse susceptibilidades. E porque não se trata de anho e nem é muito bem cabrito, tomou o nome de cordeiro, até pela sua ligação à Páscoa.
A origem do nome não é consensual. Há quem conte que alguns criadores cobriam a forragem de sal para os animais encherem a barriga de água e, no dia de feira, parecerem gordos. Quem não conhecia a tramoia e comprava os bichos dizia dias depois: "Mais uma foda!". Outra corrente diz que, empanturrados de cabrito, alguns maridos diriam à mulher que o prato seria melhor que a dita.

domingo, 31 de março de 2013

Feliz Páscoa


Em tempos estranhos e de tanta tolice...


NÓS, AS CRIATURAS

É um prazer ver um rebanho. Esta semana vimos um com uma ovelha negra ainda na fase da adolescência. Os borregos saltitavam como ómegas. O verbo inglês é gambol. Em português como é? Os gatos e as raposas também fazem estas levitações instantâneas, sem balanço de qualquer espécie.
Só há duzentos e tal anos é que a grande maioria de nós não vive com os animais como vizinhos, inquilinos e, sobretudo, guardiões, garantindo a nossa sobrevivência. Aqui ao pé de nós temos o compadrio dos pombos, a indignação de gansos, o desprezo dos melros, a concorrência selvagem dos patos, as marchas dos perdigotos atrás das perdizes. Há cães abandonados - alguns sobrevivendo como fantasmas brancos - e outros que encontraram donos melhores e mais fiéis do que os primeiros.
Estão escandalosamente escondidos dos nossos olhares os animais que mais matamos e comemos: os frangos, os porcos, os novilhos, os coelhos, os peixes até. Se os víssemos vivos, mais vezes do que vemos (quase nunca), se calhar não seríamos tão vorazes. O rebanho que seguimos é a melhor máquina aparadora de relva que já vi. Os pastores e o cães são amigos das ovelhas: elas têm uma vontade geral e estúpida, como Rousseau inventou inteligente e erradamente, para as pessoas.
A Primavera é uma reabertura não só de plantas como de bichos, pessoas e climas. Junta todos os seres vivos na altura. É pena termos aprendido, entretanto, a distinguir entre eles. E entre eles e nós, como criaturas.

Miguel Esteves Cardoso - Público



sábado, 30 de março de 2013

O planeta Sócrates

José Sócrates em entrevista à RTP

“Em Portugal, a diferença entre a honestidade e a vigarice desapareceu. E no entanto toda a gente se ri, sem razão.” (Vasco Pulido Valente)

A única "narrativa" é a do ficcionista José. Alberto Gonçalves

O velho Sócrates do ódio patológico. João Pereira Coutinho

Caso psi de negação da realidade e da verdade. Eduardo Cintra Torres  

Da miséria e da menoridade dos conspiradores. Henrique Monteiro 

Vitmização de um injustiçado com futuro. Paulo Fonte

A verdade de um umbigo falante. Paulo Pinto Mascarenhas 

Sócrates foi eleito deputado nas últimas eleições legislativas. Então que ocupe o seu lugar na bancada do PS e intervenha a partir da "casa da democracia. José Diogo Madeira 

Os portugueses adoram regressos. Voltar a ver uma personagem que desapareceu, como no caso de Sócrates, desperta no mínimo curiosidade, acompanhada de um ódio visceral ou de uma admiração infantil. Carla Hilário Quevedo

sexta-feira, 29 de março de 2013

Para começo do contraditório



"O contrato com Sócrates para ser comentador semanal no canal público de televisão teve de partir, ou de passar, por Relvas. Isso é óbvio. É uma contratação que infelizmente não surpreende porque, na verdade, José Sócrates e Miguel Relvas são políticos siameses. A história da licenciatura de Relvas foi o primeiro sinal de uma semelhança que se revela bem mais funda: o mesmo fascínio pelo mundo dos negócios, o mesmo desprezo pela cultura e pelo mérito, o mesmo tipo de relação com a comunicação social, o mesmo apego sem princípios ao poder e, acima de tudo, a mesma lata, uma gigantesca lata!

Como já há tempos afirmei, Sócrates e Relvas são sem dúvida os dois políticos que mais contribuíram para a crise moral, e de confiança, que o País atravessa. São casos que a radical mediatização dos nossos dias facilita. Nomeadamente, porque ela abriu as portas à irrupção de um novo tipo de político, que trocoua imagem de cidadão esforçado, reservado e responsável de outros tempos, por um perfil em que o traço dominante é, simplesmente, o da lata. E essa lata, é o quê? É sobretudo a expressão de uma afirmação pessoal sem limites de qualquer ordem, que tudo arrasa no seu caminho, num júbilo mais ou menos histérico.

Os "políticos de lata" estão em sintonia com muitas transformações do mundo contemporâneo, e que é por isso que eles suscitam inegáveis apoios e vivas controvérsias. Figuras maiores, bem ilustrativas deste fenómeno, são Sílvio Berlusconi ou Nicolas Sarkozy. São sempre criaturas mitómanas, destituídas de superego e, portanto, de sentido de culpa ou de responsabilidade. Revelam uma contumaz incapacidade de lidar com a frustração, que é, como Freud bem ensinou, onde começam todas as patologias verdadeiramente graves. Com eles, tudo se dissolve num narcisismo amoral, quase delinquente, que vive entre a alucinação de todos os possíveis e a rejeição de quaisquer limites.

A lata tornou-se num traço político muito frequente, que anima os mais variados, e lamentáveis, tipos de voluntarismo. Não admira pois que os políticos de lata se singularizem, não pela sua dedicação a causas ou a convicções, mas pelos intermináveis casos em que se envolvem e são envolvidos. É também por isso que eles têm sempre que tentar voltar - foi assim com Berlusconi, é o que se tem visto com Sarkozy, chegou a vez de José Sócrates. Não resistem... e todos encenam, para disfarçar a sua doentia obsessão com o poder, umas travessias do deserto mais ou menos culturais... Berlusconi com a música, Sarkozy com a literatura e o teatro, Sócrates com a filosofia. Mas o seu compulsivo "comeback" acaba sempre por se impor, porque ele é o tributo que eles têm que pagar à sua tão vazia como ilimitada mitomania. 

O que Sócrates deve fazer é assumir as suas responsabilidades na crise, e pedir desculpa aos portugueses - e para isso bastava uma entrevista pontual, sóbria, esclarecedora e responsável. É isso que os Portugueses merecem, é disso que a nossa democracia precisa, e é a isso que o Partido Socialista tem direito. Ficar a pastar nos comentários, pelo contrário, é puro circo político, e do pior: é usar o horário nobre do serviço público de televisão para jogadas de baixa política e de pura revanche política pessoal." 

Manuel Maria Carrilho Ler mais

Fala quem sabe e bem conhece a criatura. E nada melhor que uma "narrativa" sobre as principais qualidades dos grandes "animais políticos" do nosso tempo. O bicho promete e a desforra também. Haja animação e bofetada se necessário.     

quinta-feira, 28 de março de 2013

A narrativa do aldrabão



Sócrates regressou ao "palco mediático", igual a si próprio e no seu melhor, obcecado com o passado de que foi nefasto protagonista, determinado na árdua tarefa da sua recuperação política. "Bem preparado", na apreciação dos seus correlegionários, cedo mostrou ao que vinha: contrariar "a narrativa única" de ser ele o grande responsável pela falência de Portugal. Nas suas palavras, uma enorme falsidade que os portugueses interiorizaram, porque não existe verdadeira oposição a quem hoje nos governa, porque a comunicação social não tem "verdadeiro contraditório", porque era urgente restituir a verdade (não se sabe a quem) como presume ser sua missão. Para o País, que desgraça ter sido um irresponsável governante, que náusea suportar agora semelhante descaramento.

Quem esquecesse a forma de estar na política do ex-primeiro-ministro, esperaria o seu regresso num papel bem diferente: o de analista-comentador, munido da acutilância e da contundência dos mais temidos. Só que, não é essa a sua natureza, nem é para isso que ele agora regressa. Para o que veio, justificar fracassos, é indiferente ter demorado tanto ou ter iniciado mais cedo as hostilidades. Mas voltar com a única preocupação de bem-contar uma história que considera deliberadamente deturpada, é patético propósito de quem pretende vingança a eito. Tudo, sem admitir erros próprios e assacando culpas aos demais. São conhecidas as suas tendências para o abismo, mas também se conhecem as suas legítimas ambições. E este não é certamente o caminho da regeneração que o destino lhe exigirá. 

Centrado na narrativa da vitimização, Sócrates voltou a insistir nas máximas da "ficção socrática", uma realidade que carregamos e não esqueceremos tão cedo. Ardilosamente, a criatura utilizou uma mistura de manha e de mentira para voltar ao estafado exercício da manipulação dos dados e da negação das consequências, apenas para confundir os incautos, acerca das medidas desastrosas aplicadas pelo seu Governo. Simplesmente, um regresso ao passado, para negar o que já negou, para mais uma vez repetir o que estamos fartos de ouvir. Até a argumentar trafulha. A certa altura, argumentou com a necessidade de "desmontar embustes" fantasiando com novos embustes. Habituado a conduzir as entrevistas e os debates segundo o seu arbítrio, chegou a ser mal-educado com os jornalistas. Nada que altere muito o que pensa a larga maioria dos nativos que abominam "o homem do último resgate nacional".  

Se pretende "tomar a palavra" para continuar com a "narrativa do ajuste de contas", semanalmente... 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Lugar para tudo



SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS - MAIS OU MENOS PROSÁPIA

Em Espanha, tanto na rádio como na televisão, as tertúlias sobre a actualidade e também especializadas sobre desporto, cinema, tourada e outros espectáculos, preenchem grande parte dos horários com maior audiência. O formato do analista individual (invariavelmente político sem cargo na reserva) que semanalmente por cá se pronuncia sobre a actualidade política é coisa estranha na comunicação social espanhola. Daí terem achado muito estranho o regresso de um ex-chefe de governo como José Sócrates ao espaço mediático. 
Na classificação para o mundial de futebol, portugueses e espanhóis disputaram jogos quase decisivos para o apuramento. Previamente, todos referiam a necessidade de não falharem para evitarem jogos de repescagem entre os que não vençam os seus grupos. Conclusão óbvia. Com tal preocupação, foi discutida numa dessas tertúlias sobre futebol, a eventualidade da Espanha não conseguir evitar os jogos entre aflitos. Sem reservas e algum desplante concluíram o seguinte: a FIFA não deixaria de ter em conta os azares de grandes selecções como Espanha, Portugal ou Inglaterra, facilitando a sua tarefa, por serem presenças imprescindíveis no mundial do Brasil. Estamos entendidos. Depois não querem que o Mourinho se indigne e proteste contra as trafulhices que o prejudicaram em benefício do seleccionador espanhol. Parece que vale qualquer coisa. Por fala em vícios...




COMO AS COISAS FORAM E SÃO - JAMAIS FICARÁ "ELA POR ELA" 

Há 60 anos, 20 países, entre eles Grécia, Irlanda e Espanha, decidiram perdoar mais de 60% da dívida da Alemanha (República Federal ou Alemanha Ocidental). O tratado, assinado em Londres, foi determinante para o país se tornar numa grande potência económica mundial e num importante aliado dos Estados Unidos, durante as décadas da Guerra Fria contra a antiga União Soviética. Quem te viu e quem te vê, Alemanha. Outros tempos.



Miguel Relvas

COM TANTA CHUVA COMO A RELVA CRESCE 

É oficial. Já foi proclamado em Diário da República e tudo: acabaram-se os subterfúgios, a camuflagem, a vergonha até. O chamado “superespião” vai usufruir, presume-se que nos intervalos do seu julgamento, de um gabinete com ar condicionado para suavizar a travessia do deserto. A lata é tudo.





As estátuas antes e depois dos trabalhos exigidos por Berlusconi, em 2010. Agora, voltaram ao seu estado inicial

É A PROEMINÊNCIA ARTÍSTICA ESTÚPIDO... 

Duas estátuas antigas de Marte e Vénus, expostas na sede do Governo italiano, perderam os "acrescentos" polémicos que tinham sido acrescentados a pedido do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi: Marte perdeu os seus atributos viris e Vénus as duas mãos. Como achava as estátuas em mármore incompletas, Berlusconi solicitou em 2010 que o caso fosse solucionado, apesar das críticas dos historiadores de arte. Marte recuperou então uma mão, o seu escudo, o pénis e a ponta da espada. Já Vénus recuperou as duas mãos. Datadas de 175 d.C e encontradas em 1918 em Óstia, perto de Roma, as estátuas de 1,4 toneladas e de 2,28 metros representam o deus da guerra, na forma do imperador Marco Aurélio, e da deusa do Amor, como a sua mulher Faustina.


terça-feira, 26 de março de 2013

Diagnósticos do caos



Martin Taylor  no “Financial Times” sobre Portugal: “É um país onde tudo está à venda e ninguém compra nada".


No recente artigo publicado no “Financial Times”, ex-CEO do Barclays alerta que os governos e os bancos centrais estão a experimentar tratamentos monetários agressivos, que alguns até consideram perigosos, e exemplifica com uma comparação entre Portugal e a Argentina.

Em Portugal, como descreve Martin Taylor, depois de recentemente nos ter visitado, os "residentes estão sem dinheiro", as auto-estradas "construídas com fundos comunitários estão desertas", com o tráfego desviado para as velhas estradas, sem portagens. Um país onde os automobilistas preferem "estacionar os seus velhos carros em ruas estreitas para não pagarem um euro ou dois para estacionar num parque".
Como refere no artigo, "a recepcionista do hotel - vazio - chega depois de uma longa espera para servir uma bebida e, mais tarde, regressa como empregada no restaurante". E alerta: num país que "tem as boas maneiras europeias, os portugueses começaram a expressar a sua frustração no estilo franco e vivo do graffiti".
O triste ‘fado’ que veste a capa do regime de austeridade, a que os portugueses estão submetidos, é uma espécie de coma. "O Estado gasta o menos possível e procura extrair cada vez mais dos cidadãos. Estes parecem passar a maior parte do tempo a procurar formas de evitar esses pagamentos".
Os "rácios do endividamento permanecem teimosamente altos, mas os caríssimos ‘médicos’ estrangeiros acreditam que uma dose mais elevada deste tratamento acabará por demonstrar, no fim, que têm razão”.

Na Argentina, há muita moeda, em comparação com a falta de capital em circulação em Portugal, enquanto a inflação anda pelos 10/20%. As pessoas têm pressa em gastar, mas não têm acesso a divisas estrangeiras nem aos mercados de crédito. Não há capitais estrangeiros a entrar neste país e os bancos estão obrigados a dar uma parte significativa dos seus depósitos para investimento produtivo.
O ‘tango' recebe constantes estimulações e os ‘médicos’ dizem que está muito melhor desde que reestruturou a dívida, apesar de não poder sair do hospital. 

Nestes cenários, prescreve: "Os médicos são sobretudo intimados a não fazer mal". Martin Taylor.



E aqui chegamos a este mundo de loucos: ao esplendor da "social-democracia", a transbordar de direitos e garantias, de progresso e riqueza - indefesas criaturas subjugadas pelas arbitrariedades e pelos artifícios do Estado. Eis as últimas vítimas da ficção montada no abismo chamado "Europa".    
Os pontos essenciais do resgate ao Chipre.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Pré-lavagem do pós-graduado


Do manicómio onde se exibe muita desfaçatez e pouco bom senso
(as reacções continuam)


"Sócrates volta, e volta a convite da RTP, uma empresa pública onde o Sr. Relvas manda, para um programa semanal que se destina a reabilitar politicamente a sua pessoa e a fazer dele um candidato plausível à Presidência da República (...) Com tudo o que se passou desde que o dr. Cavaco o remeteu para mais verdes paragens, Sócrates não percebeu ainda que a generalidade dos portugueses não lhe concede o favor da mais leve desculpa e o considera responsável pelo sofrimento e as misérias da crise.
Mas o problema não se esgota aqui. No seu tempo, Sócrates foi o primeiro-ministro que mais se esforçou para administrar a informação e para controlar, às vezes com manobras sem nome, a televisão, a rádio e os jornais. Não foi por acaso que o país chegou à undécima hora sem a menor ideia do poço para que tinha sido conscientemente atirado. Por omissão e por comissão, Sócrates sempre se mostrou um homem muito flexível com a verdade. E pior: um homem que vivia bem no mundo imaginário que vendia, sem o menor escrúpulo, aos portugueses. E nem o desastre o regenerou, quando de Paris concluía que a dívida se administrava, não se pagava, enquanto Portugal inteiro se espremia para a pagar (...) 
Resta saber por que razão o sr. Relvas ofereceu ao sr. Sócrates um comício regular na RTP. Não compreendeu que atribuir um privilégio destes a um político desacreditado desacreditava a própria televisão pública, e, de caminho, ofendia o país? Ou a ressurreição do indivíduo não passa de uma simples peça de um negócio maior e mais complexo, que por enquanto o país desconhece? Existem naturalmente muitas hipóteses. Mas, qualquer que ela seja, é, com certeza, uma vergonha nacional." Vasco Pulido Valente - Público


“O regresso de José Sócrates prova que, como diz o povo, o criminoso volta sempre ao local do crime.” Paulo Pinto Mascarenhas.

"A volta de José Sócrates à vida política vai condicionar muito mais a liderança do PS do que o Governo." Paulo Baldaia.

"Quanto ao facto em si, ganha a RTP e perde muito mais o PS do que o Governo. Eis pois uma grande jogada, jornalística e política." Filomena Martins.

"O que Sócrates disser sobre o governo será irrelevante. É o PS e a guerra interna no PS, o verdadeiro assunto." Ana Sá Lopes.

"Sócrates no ecrã vai eclipsar os seus pares e garantir, sem grandes margens de erro, audiências à RTP." Alfredo Leite

“A contratação dum inimigo da liberdade de expressão e ex-ditador da RTP representa novo máximo na degradação moral da RTP.” Eduardo Cintra Torres.

"O público, que gosta de fingir estar contra a "partidocracia" na política, aceita sem objecções a "partidarite" na análise da política. excepto no caso de José Sócrates, que a RTP se lembrou de contratar para emitir palpites. É verdade que os palpites do homem ajudaram imenso à ruína do país. É verdade que ao contribuinte custará muito pagar um novo salário (em numerário ou em tempo de propaganda) a quem tanto contribuiu para a sua penúria. É verdade que dói ver facultar a liberdade de expressão a um seu incessante inimigo. É verdade, em suma, que o "serviço público" decidiu adicionar o insulto à injúria. Porém, julgo excessivo que a indignação das massas, traduzida numa série de petições inflamadas, recaia exclusivamente em cima do ex-primeiro-ministro, ex-estudante de Filosofia e actual vendedor de medicamentos na América Latina." Alberto Gonçalves.

domingo, 24 de março de 2013

Do que apetece




"A melhor coisa que se pode fazer a uma criança é falar sobre ela fingindo que não sabemos que ela está a ouvir." Inês Teotónio Pereira.


"Em Portugal, o hábito não é, infelizmente, o de ser breve nas intervenções parlamentares, nas reuniões nas empresas, nas conversas com estranhos." Carla Hilário Quevedo.



sábado, 23 de março de 2013

Francisco não deixa de nos interpelar


 GRAÇA  FRANCO

"Não tenhais medo... da bondade e da ternura"
Pressenti que o desafio não passaria despercebido. Aqui está.


Lá fora a chuva cai


sexta-feira, 22 de março de 2013

Bonito serviço público


José Sócrates, ex-primeiro-ministro português, numa foto de arquivo nos estúdios da RTP

Sócrates está de volta, para ver se continua a ficar bem, frente às câmaras de televisão. Em cada português teremos um Luís-perito da comunicação, para ajuizar se continua igual a si-próprio nas prestações mediáticas. Não me parece má ideia. Além do mais, o Papa também é outro.
No seu regresso à Pátria das aventuras, conta com algumas vantagens. Em primeiro lugar, "a sua cara não é estranha", para qualquer indígena. Depois, a casa, foi e será, dos maiores deste País. E como finalmente, Relvas pensa deixar o governo e ficar na RTP, precisa de parceiro do seu tipo para as prédicas semanais. 
Sócrates vem de Paris, Relvas deixa o Governo, encontro marcado para as celebrações na "querida televisão". E nada de escândalos.         


quinta-feira, 21 de março de 2013

Os desabafos na rua




Sobre as últimas grandes manifestações contra as políticas daqueles que governam os portugueses. 

José Manuel Fernandes - Público

"Tal como paira sobre o país, pairou sobre as últimas manifestações uma sensação de fatalidade. Houve manifestantes que ingenuamente o confessaram, quando disseram aos repórteres que provavelmente nada mudaria no dia seguinte aos desfiles, mas houve sobretudo a enorme omissão sobre como fazer diferente. A própria convocatória criou o paradoxo: devia-se estar ali para dizer "que se lixe a troika", mas esteve-se ali sobretudo para desabafar contra os poderes públicos. Muitos, talvez a maioria, dos que desfilaram nem sequer querem que a troika se vá já embora - sabem que tudo ficaria pior se isso acontecesse. Mas a quase totalidade está zangada com o que nos está a acontecer e precisava de o dizer alto. Sobretudo os idosos da classe média, os que nos últimos dias de Fevereiro ficaram a conhecer os cortes nas suas pensões. Mas a sensação de fatalidade tem raízes mais fundas, não deriva apenas das emoções contraditórias de um dia de manifestações. Ela radica na falta de esperança e num sentimento difuso de desorientação. Falta de esperança não por causa do discurso canhestro do Governo, como gostam de explicar alguns comentadores e candidatos a conselheiros do príncipe, mas por se olhar para o país, para a Europa e para o mundo e não se perceber como é que as coisas vão poder melhorar. A revolta contra tudo o que é político, naturalmente com mais virulência contra tudo o que é ministro, mas também contra tudo o que é banqueiro, ou gestor, ou reformado rico, não corresponde à reemergência do velho mal nacional da inveja, antes deriva da percepção de que os futuros estão fechados, de que os elevadores sociais desapareceram, de que deixou de se saber o que fazer para melhorar a vida (...) Olha-se para isto tudo, olha-se também para o espectáculo dado nos últimos meses pelas nossas elites, presas como nunca aos seus preconceitos, às suas vaidades e aos seus privilégios relativos, e facilmente se entende a sombra que pareceu pairar sobre os manifestantes. É para as razões dessa sombra, para os porquês do sentimento de fatalidade que desceu as avenidas de braço dado com uma longa lista de indignações e queixas, que os responsáveis políticos deviam olhar." Ler mais.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Populismo de jaqueta




A significativa imagem que ficou do longo e agitado cerimonial fúnebre em memória de Hugo Chávez, representou o arranque da nova fase do chavismo. O vice-presidente Nicolás Maduro, vestido com a jaqueta nacionalista, mais o presidente da assembleia nacional Diosdado Cabello, vestido com traje militar. Maduro não tardou a ser confirmado presidente e assim tomou forma mais um atropelo à Constituição do país. Cabello aceitava permanecer com o comando das forças armadas que já lhe pertencia, enquanto abdicava da chefia do Estado a favor do novo homem-forte  que se autoproclamava presidente. Mais uma inconstitucional vontade, expressa pelo defunto presidente. Desta vez, com o testamento político a ser entregue em mão e em vida a uma especial mensageira, a presidente argentina Cristina Kirchner (e quem mais insuspeito podia ser). Sem perda de tempo e terminadas as exéquias, para aproveitar o testemunho de tantos estadistas, ditadores, terroristas, da vizinhança cubana a Ahmadinejad do Irão, jurou o novo presidente, pela revolução bolivariana,  prometendo “pulso forte”. Promete do melhor para segurar o poder. De seguida, novas  eleições com candidato do chavismo já presidente, enquanto há pranto e lamúria a embalar os votos. Dificilmente Henrique Capriles da oposição à direita terá condições para disputar a presidência. Enquanto isso, o próprio Maduro já alertou que lhe pode acontecer o mesmo que a Chávez e ser morto pelos habituais inimigos da revolução enviados pela CIA. Sem dúvida uma herança de regime capaz de tudo fazer ou manipular  com o fim último da manutenção do poder. 

Para os seguidores do chavismo, o comandante era o filho dilecto de Fidel Castro e a reincarnação de Simón Bolívar, como passou a ser referido pelo sucessor Maduro. Sendo ou não verdadeiro que percorreram as ruas de Caracas com os restos mortais do líder, que o mantiveram exposto uma semana antes de ser embalsamado como anunciaram, que voltaram a percorrer a capital em cortejo fúnebre depois de desistirem da mumificação, o que queriam os servidores do caudilho venezuelano era que continuasse falsamente vivo. Ao embalsamá-lo à moda de Lenine, Mao e outros chefes comunistas, queriam perpetuar  o poder político através de um morto, com a mesma irracionalidade com que se agarram à vida. 

Hugo Chávez era um demagogo com uma insaciável sede de poder. Um líder populista com aversão a partidos e hierarquias que tudo submetia às suas arbitrariedades. Começou por ser um militar que se deu a conhecer ao mundo como oficial golpista depois de várias conspirações, vindo mais tarde a candidatar-se a umas presidenciais que venceu, para depois alterar a Constituição de modo a fazer-se eleger sem limite de mandatos. Ocupou o Palácio presidencial desde 1999 e ocupou quase todo o palco mediático do país, com as suas intermináveis arengas aos venezuelanos, várias das quais transmitidas em todos os canais televisivos e radiofónicos por imposição legal. Nas presidenciais do ano passado, com a sua entourage obcecada em esconder dos eleitores o verdadeiro estado clínico do recandidato, recusou qualquer debate com o opositor Capriles, trocando o argumento civilizado pelo insulto. Foi uma campanha inútil para uma eleição igualmente inútil. Uma desesperada jogada do chavismo para perpetuar uma liderança que prometia estender-se por mais 18 anos. Não chegou sequer a cumprir o acto de posse, primeira formalidade indispensável para exercer o cargo. E assim terminou o trajecto de um semideus idolatrado pelas massas, odiado visceralmente por numerosos inimigos políticos e tendo ao seu dispor um impressionante aparelho de propaganda, bem remunerado com as receitas do petróleo. 

Entre os países sul-americanos, “o Pais da revolução bolivariano” como Chávez sempre nomeou, conta com diversos países aliados. Para além de membro do “Mercosur”, era com a exploração do petróleo que ia sustentando as relações económicas. Antes de qualquer outro Estado, Cuba era e é um caso especial. O regime cubano recebe de Caracas perto de 100 mil barris de petróleo a cada dia, pagos por Havana a preços consideravelmente abaixo do praticado no mercado internacional. Foi com esta ajuda que Cuba conseguiu compensar a quebra das remessas que recebia até ao colapso da União Soviética. Um diferencial acumulado em jeito de dívida que transforma a petrolífera estatal venezuelana numa colossal credora dos cubanos. Depois as vendas de petróleo aos EUA, as trocas de favores com os países mais fortes, como o Brasil e a Argentina, as ajudas declaradas às depauperadas repúblicas vizinhas que mais se identificam com o ideário revolucionário, como a Bolívia, o Equador e a Nicarágua. Através destas trocas comerciais com o exterior, mais a manutenção duma gigantesca clientela do regime, mais o sustento duma sociedade de miséria que vive de subsídios, a Venezuela vai sobrevivendo, à custa duma excepcional extracção petrolífera de que nem sequer fazem refinação, sem qualquer produção agrícola ou industrial, consumindo avidamente os recursos do País.  

Os protagonistas políticos que precederam Chávez deixaram o país mergulhado na corrupção, a braços com uma profunda crise  económica e social, imerso em níveis de desigualdade absolutamente escandalosos. Por isso, o sucesso da proposta chavista deve-se, para além das óbvias manobras e golpes de manipulação das regras democráticas, ao falhanço estrepitoso das forças políticas mais conservadoras. Economicamente, e depois das experiências colectivistas da sua ‘revolução bolivariana’, a Venezuela é um caso perdido. E, mesmo que não fosse, bastaria acompanhar o autoritarismo do homem em 15 anos de liderança para o desqualificar. De que vale ganhar nas urnas quando se controla a comissão eleitoral do país e se submetem todos os outros poderes – o parlamento, a justiça, a comunicação social, as forças armadas – aos caprichos de um único homem? Chávez é o típico exemplo de alguém que usou a democracia para subverter a democracia.  Com a bandeira do ‘Socialismo do séc. XXI’ foi apenas um "ilusionista", como lhe chamou Gabriel García Márquez.

hugo chavez